“Te Amo Mucho” II

“Pinto flores para que así no mueran.” [sic]  Frida Kahlo

“Yo quisiera… poder hacer lo que me de la gana detras de la cortina de “la locura” Asi: arreglaria las flores, todo el dia, pintaria el dolor, el amor y la ternura, me reiria a mis anchas de la estupidez de los otros, y todos dirian: pobre! esta loca. (sobre todo me reiria de mi estupidez) construiria mi mundo que mientras viviera seria mio y de todos…” [sic] Frida Khalo

Anúncios

Flor

“Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Adoro ver surgir os primeiros rebentos de flores. Ainda falta um pouco até à primavera, mas esta começa a querer espreitar um pouco por toda a parte.

8

IMG_2233.JPG

“Não sabia o que queria mas se pudesse, voar seria. Sentia por dentro uma inquietação de ave, vontade súbita e suave de longe, descolar do chão com destino sem mapa. Maneira de estar, sem estar, sempre de olhos e cabeça no ar, nas nuvens, na lua. (..) Dançava e cantava muitas vezes, porque cantar e dançar são metade de viajar. Tal como um sonho pode ser metade da distância ao lugar onde se quer chegar.”

in “Sonho com Asas” de Teresa Martinho Marques

Amêndoas

“Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.

WP_20170817_19_42_52_Pro.jpg
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se vêem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.

Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor.”

“Alexandra” de Joaquim Pessoa, in ‘Guardar o Fogo’

Árvore

20170704_190855 (1).jpg

“Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.”

António Ramos Rosa in “Cada árvore é um ser para ser em nós”, 2002